17/05/2009

"COMO O FOGO AJUDOU A QUEIMAR A MENTIRA"


"A coerência deixa de existir no homem, quando o homem deixa de existir no outro."

“COMO O FOGO AJUDOU A QUEIMAR A MENTIRA”
Nascido na cidade de Âncio, Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus (37-68) foi o quinto imperador romano.

Nero foi filho de Gnaeus Domitius Aenobarbus e Agripina (16-59), oriundos de tradicionais famílias da sociedade romana. Porém, sua vida política ascendeu ao estrelato após o matrimônio de sua mãe com Claudius (10 a.C - 54 d.C), Imperador Romano.

Adotado pelo mandatário maior da “cidade eterna”, Nero vê o nome de Britanicus (41-55) - herdeiro de direito - ser relegado. As idéias de sua mãe Agripina estavam surtindo efeito.

Contudo, no jogo do poder, o próximo lance é sempre o mais importante. Envenenar Claudius (?) surge como alternativa viável. Independente da absoluta falta de provas, o fato levou Nero ao trono romano, com a anuência das principais forças políticas.

A falta de experiência do novo Imperador não foi sentida. Sua mãe, Agripina, sempre esteve por perto e pronta a colaborar. O filósofo e preceptor Sêneca (4 a.C – 65 d.C) e o prefeito pretoriano Burros (5-62), fechavam a trinca de mentores.

Assim sendo, Nero projetava-se através de uma imagem positiva, ideal ao trono romano. Infelizmente, seu contato com outro prefeito pretoriano, Ofônio (8-69), pôs tudo a perder - ou tornar-se real. O filho adotivo de Claudius enxergou novas perspectivas no poder, tais como tramas e acordos ilícitos; homens conspiradores e corruptos.

A coerência deixa de existir no homem, quando o homem deixa de existir no outro. A figura do “deus homem” torna-se refém de sua demência. Aqueles que tanto partilhavam de seu ambiente passaram a ser perniciosos - Agripina assassinada e Sêneca afastado e executado.

Com o tempo, Nero tornou-se impaciente, constantemente insatisfeito e incompreendido por todos - achava-se um artista e como tal exigia notoriedade. Imaginava-se o centro das atenções, o que acabou contribuindo contra os cristãos.

Com a moral em crescente estado degenerativo, o fim de Nero estava próximo. Conspirações militares e aristocráticas se acumulavam. A arte do suicídio foi uma conseqüência.

Era o fim do homem fabricado.

06/05/2009

"A LENDÁRIA LINHAGEM DE NOÉ E O FLAGELO DO PLANALTO IRANIANO"


" ... Império Pártia, hegemonia do Planalto Iraniano e da Mesopotâmia ..."

"A LENDÁRIA LINHAGEM DE NOÉ E O FLAGELO DO PLANALTO IRANIANO"

Fora da Península Itálica o Império Romano prevaleceu por intermédio de suas províncias, conquistadas através de guerras, pilhagens e acordos. Entre elas, a Armênia.

A Armênia fazia - e faz! – fronteira com a Turquia (oeste), Geórgia (norte), Azerbaijão (leste) e Irã (sul). Entretanto era - ainda é! - um território vinculado à Europa quanto aos quesitos cultural, político e social.

Nos primórdios, a Armênia era conhecida por Haik, nome derivado de um lendário patriarca, descendente da linhagem de Noé (1) , que por sua vez teria atracado sua arca, após o dilúvio, no Monte Ararat (2) , rodeado pelo Planalto Armênio.

Iniciados na Idade do Bronze, vários estados e povos destacavam-se na Grande Armênia - por exemplo: os Hititas. O fator miscigenador entre os povos e estados que se alternavam no poder trouxe aos armênios uma identidade nacional.

A Armênia caracterizou-se por períodos intercalados de independência e subserviência, em virtude de seu posicionamento geográfico e estratégico entre dois continentes.

Entre os interessados no clientelismo armênio destacava-se o Império Pártia, hegemonia do Planalto Iraniano e da Mesopotâmia, desde o século III a.C.

À época, o Império Pártia era considerado como o maior concorrente do Império Romano. Irritantemente, a Pártia limitava as fronteiras das conquistas romanas – com epílogo na Anatólia, atual território da Turquia.

Geograficamente, a Pártia englobava o que hoje conhecemos como Afeganistão, Armêmia, Azerbaijão, Geórgia, Irã, Iraque, Kuwait, Paquistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, leste da Síria e da Turquia e costa litorânea da Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. Contudo, conheceu seu revés em 224 d.C, quando seu último rei tombou pelas mãos de um dos seus vassalos, Ardachir I, natural da Pérsia e Dinastia Sassânida.

O Império Pártia era constituído por uma terra rica, cidades antigas e grandes rotas comerciais. Era o símbolo de uma Ásia remota e nunca dominada em sua essência.

Embora fossem detentores de costumes exóticos, o que lhes trazia um certo ar místico, os partios eram taxados de "mentes traiçoeiras" por parte dos rivais romanos, além de serem lembrados pelo contingente e pela pontaria de seus cavaleiros arqueiros – cavalgavam e disparavam flechas, simultaneamente.

Enfim, analisando o quadro competitivo, ao final da Idade Antiga, percebemos que Roma, a cidade eterna, só não foi unanimidade em virtude de povos como os partios.

(1) Filho de Lameque, que era filho de Matusalém.

(2) A Armênia é a principal herdeira de um país de mesmo nome, conforme as inscrições sumérias.

29/04/2009

"ÁGUAS SALVIAS, CADAFALSO DE UM CAMINHANTE"


"... Paulo vislumbrou uma luz que se destacava na paisagem."

“ÁGUAS SALVIAS, CADAFALSO DE UM CAMINHANTE”.

Paulo nasceu Saulo de Tarso (c. 3 – c. 67), Cilícia – atuais territórios da Síria e da Turquia. Munido do livre arbítrio escolheu seu destino.

Liberto da hipocrisia que contamina determinados valores tradicionais, Paulo preferiu a estreita passagem rumo à verdade, em detrimento de outras mais largas que pudessem levá-lo ao lugar comum.

Homem culto – estudou na Escola de Gamaliel (século I), rabino (doutor da Torá) de Jerusalém –, Paulo era fariseu (1) . Dominava as línguas grega e aramaica

Perseguidor implacável dos cristãos, Paulo participou de um apedrejamento em nome da “Lei Mosaica” (2) – Stephanos, um dos sete primeiros diáconos da “igreja nascente”; ajudante dos líderes da igreja local; protomártir representado pela coroa do martírio da cristandade.

A mudança do “homem de Tarso” iniciou-se com sua viagem a Damasco, no intuito de sufocar a estrutura que se fazia valer de uma nova seita dentro do judaísmo. Enquanto caminhava, Paulo vislumbrou uma luz que se destacava na paisagem local. Ela progredia ao seu encontro. O que queria? Contatar-lhe, dizem as escrituras; demover-lhe dos hábitos costumeiros; expandir-lhe a mente.

Independente da tangibilidade do fenômeno, o apóstolo renunciaria a seus pontos de vista de outrora, acatando novas propostas que pontuariam suas atitudes. O fariseu tornar-se-ia missionário, levando a palavra de uma nova fé aos gentios – não israelitas.

O nativo de Tarso peregrinou pela Grécia, Macedônia e Ásia Menor, fundando diversas comunidades cristãs. Entretanto, acusado de ter profanado o interior do Templo de Jerusalém, Paulo é preso – 61. Graças à interferência do governo central romano, o missionário teve a pena comutada para encarceramento de dois anos – melhor que a morte, originariamente imposta.

Na Espanha, novamente viu seu nome envolvido em denúncias promovidas por um simples trabalhador, Alexandre o ferreiro. Posto a ferros no cárcere Mamertino, aguardou seu julgamento, realizado no ano sublime de 67. Paulo foi condenado à morte e decapitado em lugar conhecido pelo nome de Águas Salvias.

Entretanto, Paulo foi menor que sua obra. As “epístolas paulinas” - escritas entre 53 e 67, aproximadamente -, conjunto de cartas redigidas e reunidas no Novo Testamento superaram o homem. Tais missivas anunciaram os novos fundamentos pautados pelo cristianismo.

As primeiras epístolas do “corpus paulinum” foram escritas aos coríntios e aos romanos.

Aos coríntios - I Coríntios (55) -, Paulo fala dos dons espirituais e da importância do amor genuíno.

Aos coríntios - II Coríntios (c. 55 – c. 57) -, Paulo fala de sua humildade como servo de Cristo e o começo de seu relacionamento com a Igreja. Ataca com veemência os falsos mestres, rejeitando as falsas doutrinas, e incentiva a caridade.

Aos romanos - Romanos (57) -, Paulo fala do verdadeiro sentido de seus ensinamentos, equivocadamente interpretados pelos judeus, e aborda a gratuidade do salvamento das almas.

Assim sendo, o mais importante dos discípulos de Jesus - após a sua morte - tornou-se a peça mais importante para o desenvolvimento do cristianismo.

(1) Devoto à Torá. Fariseus foram os criadores do costume das leis escrita e oral, concomitantemente; fundadores das sinagogas – locais de culto judeu.

(2) Código de leis - Torá -; a somatória da lei de Deus - invariáveis - e de Moisés - variáveis, conforme costumes e caráter do povo.

25/03/2009

"REVISITANDO A DAMA DO MONTE PALANTINO (1)"


" ... alguns adjetivos que procuravam questionar a personalidade de Messalina podem - e devem - ser reavaliados."

"REVISITANDO A DAMA DO MONTE PALATINO (1)"

Não pretendo ser escravo de minhas próprias palavras. Prisioneiro de meus próprios conceitos pré-estabelecidos.

Prefiro a verdade, mesmo que ela venha me impor um recomeço.

Estamos exaustos por conta da História contada pelos vencedores. E os perdedores, nada têm a acrescentar?

É por isso que Messalina (17 – 48) merece uma nova visita.

Sabemos sobre Messalina através do Historiador Tacitus (55 - 120) e do escritor Suetonius (69 – 141).

Messalina pode ser sintetizada pelas linhas eruditas de historiadores e escritores de temas diversos. Porém, inadvertidamente, tais artistas deixaram subentendidas nas entrelinhas o quanto pode ter sido “manipulada” a imagem da “terceira esposa” do governante Claudius (10 a.C – 54 d.C).

Roma recebeu de Tacitus uma carreira exemplar - questor (procurador), pretor (magistrado), cônsul (magistrado supremo) e procônsul asiático, além de expressivo orador. A Antiguidade percebeu nele um dos maiores modelos de historiador. Ele escreveu, entre outras obras, “Historiae” - sobre o Império Romano no primeiro século depois de Cristo. Era caracterizado pelo gosto moral e pelo severo juízo de caráter; discursos fictícios ou elaborados ao extremo. Por intermédio de sua maneira de escrever, estudos acadêmicos fizeram uma idéia precipitada do que pareceu ser a moral da sociedade aristocrática romana e sua decadência.

Suetonius, homem dedicado às armas e letras, era filho de um tribuno. Virtuoso escritor redigiu sobre a vida e a obra dos “doze césares”. Estudioso dos costumes de sua sociedade, por intermédio dos personagens principais da História por ele abordados, devassou meticulosamente a corte romana – principalmente à época do Imperador Claudius.

Assim sendo, alguns adjetivos que procuravam questionar a personalidade de Messalina podem - e devem - ser reavaliados.

Alvo de um matrimônio meramente político - articulado por seu pai, aristocrata enraizado - Messalina era apolítica. Sonhava, sim, com uma vida normal, regada a amor, filhos e cumplicidade.

Entretanto, as responsabilidades de “Imperador” tomavam o tempo de Claudius. A idade avançada aliada à absoluta falta de “sex appeal (2)” conspiravam contra ele.

Esquecida no palácio imperial e frustada com o resultado de seu enlace, Messalina deixou-se cortejar. A saber, dois homens marcaram sua vida extraconjugal, o ator Mnesteu e o Cônsul Gaius.

Mnesteu conheceu Messalina nos jogos palacianos, apresentando-lhe o lado permissivo da “cidade eterna”. Outrora amante de Calígula (12 - 41) e... homossexual confesso (?) foram motivos mais do que suficientes para decretar o fracasso de tal romance, gerando em nossa personagem um grau depressivo acentuado e tendências vulgares.

Contrariando Mnesteu, Gaius foi a antítese do devasso. Considerado pelo Historiador Tácitus “o mais belo de toda a juventude romana”, o recém empossado cônsul correspondeu ao amor da dama romana.

Nesse ínterim, aproveitando-se do distanciamento entre o Imperador e sua esposa, Agripina (16 - 59) aproximou-se de Claudius e passou a frequentar seu leito com assiduidade.

O objetivo de Agripina era claro. Ela pretendia convencer Claudius a divorciar-se de Messalina e adotar seu filho, Nero (37 – 68), favorecendo-o em uma suposta corrida ao trono romano.

Agripina, uma antiga desterrada, ao contrário de Messalina era ambiciosa e possuía interesses políticos, além de um desejo frenético de varrer da vida pública toda a família da ex-esposa de Claudius - divorciada e prestes a contrair matrimônio com Gaius.

Ardilosamente, Agripina tramou ao lado do conselheiro Narciso para que o matrimônio de Messalina transparecesse um plano para depor Claudius, fazendo de Gaius o novo imperador. Envolvido pelos bastidores, o Imperador solicita à guarda pretoriana a captura de todos os envolvidos.

É nesse momento que surge o maior indício da inocência da dama do Monte Palatino. Vibídia, sacerdotisa e autoridade maior do templo da deusa Vesta - do fogo - procura pelo Imperador e intercede a favor de Messalina.

Infelizmente, antes mesmo da sacerdotisa ser recebida em audiência, todos os indiciados estavam trespassados pelas lâminas da guarda pretoriana.

Vitória do mesmo lado de sempre, recheada pelas belas palavras do Historiador Tacitus e do escritor Suetonius.

(1) Local onde foi construída a residência oficial de Claudius e Messalina. Uma das sete colinas de Roma. Suas encostas receberam o Fórum da “cidade eterna” e o Circo Máximo. Sua superfície apresenta indícios de habitantes da Idade do Ferro - período em que ocorreu a metalurgia do ferro (entre os séculos VI e I a.C). Seu nome é derivado do deus Pale, protetor dos pastores. Diz a lenda que no Palatino foi edificada a cidade - formato quadrado - de Rômulo, um dos fundadores de Roma.

(2) Dentre as inúmeras possibilidades, o “algo mais” contido nas pessoas que permite outras apaixonarem-se por elas. Carisma.

18/03/2009

"BYZANTIUM, A FRONTEIRA FINAL"


" ... Trácia, caracterizada por ... guerreiros terríveis."

“BYZANTIUM, A FRONTEIRA FINAL”

A Trácia é uma área de incidência histórica, banhada pelo Mar de Mármara, situada entre o sul e o leste do continente europeu. Ao leste encontramos o Mar Negro e o estreito de Bósforo. Ao sul, o Mar Egeu e o estreito de Dardanelos.

À época do helenismo (1) , a Trácia limitava suas dependências até o Rio Nestos, vizinho da Ilha de Tasos, margeando o Danúbio (2) . Após a conquista da Mésia - atuais Bulgária e Sérvia - auferida pelo Império Romano, seu território retraiu na parte setentrional, até as montanhas de Haimos.

A Trácia era um corredor que levava os povos euro-asiáticos à Grécia (3) - Aqueus, Dórios, Eólios e Jônios - e Anatólia - Celtas, Frígios e Hititas -, um dos atuais territórios turcos. Era freqüentemente invadida pelos Citas (4) .

Conquistada e incorporada ao Império Persa (512 a.C) pelo General Mardônio (? – 479 a.C), a Trácia se viu livre, alguns anos mais tarde. Elevada a reino pelo destino, coroou três governadores – Hebryzelmis (? - 384 a.C), Cótis (? - 358 a.C) e Cersobleptes (? - 342 a.C). Contudo, mais uma vez tombou pelas mãos de um conquistar. Agora, Filipe da Macedônia (238 a.C – 179 a.C).

Apenas com a morte de Alexandre da Macedônia (356 a.C - 323 a.C) , filho de Filipe, a Trácia seria repassada a outro senhor e soberano. Era ele Lisímaco (360 a.C - 281 a.C), general que participara da partilha do Império da Macedônia.

Contudo, quando os interesses dos oficiais macedônios divergiram entre si, coube ao Império Romano triunfar frente à aurora, onde os conquistadores tornaram-se simples conquistados e a “cidade eterna” anexou a Macedônia – hoje, Península dos Bálcãs (5) englobando a Albânia, Bósnia, Bulgária, Grécia, Kosovo, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Turquia (fatia européia) - ,levando de brinde a Trácia, duzentos anos depois (43 d.C).

No futuro, de mero coadjuvante, a Trácia passou a ser peça principal no arcabouço romano. Surge Bizâncio - do latim, Byzantium, atual Istambul, Turquia -, capital do Império no oriente.

E sendo assim, a Trácia ficou sendo conhecida como uma das últimas províncias imperiais dos descendentes do povo latino.

(1) Período histórico compreendido entre a morte de Alexandre da Macedônia (356 a.C - 323 a.C) e a conquista da Península Grega (147 a.C) por parte do Império Romano.

(2) É o segundo rio mais longo do continente europeu, com início na Alemanha e término na Romênia, atravessando o “velho continente”. Sempre serviu de caminho entre o norte e o leste; o ocidente e o Mediterrâneo europeu. Sua bacia era propícia aos invasores. A Antigüidade assistiu seus limites naturais definirem o território do Império Romano.

(3) A cidade de Karlovo - atualmente situada na Bulgária - foi a primeira capital Trácia, caracterizado por cavaleiros hábeis e guerreiros terríveis.

(4) Era o povo natural da Cítia, na Eurásia. Entre os Montes Altai - Rússia, Mongólia e China - e o Baixo Danúbio – Bulgária.

(5) Alguns estudiosos incluem Croácia, Eslovênia e Romênia.

11/03/2009

A ALMA DA LIBERDADE


" ... soube desfrutar do exílio da melhor maneira possível."

“A ALMA DA LIBERDADE”

Existe algo pior que a falta de liberdade? Talvez, não saber utilizá-la com equilíbrio.

Embora tenha perdido o direito de ir e vir, Lucius Annaeus Sêneca (4 a.C – 65 d.C) soube desfrutar do exílio da melhor maneira possível.

Acusado de adultério e desprovido de provas que pudessem inocentá-lo, Sêneca transformou a Córsega, local de seu desterro, na fortaleza de seus estudos.

Sêneca era pensador, filósofo e escritor. Defensor do estoicismo como doutrina filosófica. Seus melhores trabalhos literários nasceram no exílio - dentre eles, as “Consolationes” (século I d.C), verdadeiros clássicos da escola estóica, onde a renúncia aos bens materiais e a busca da tranqüilidade da alma, ambas utilizadas com conhecimento e reflexo, nos permitem traçar um perfil ético deste homem provinciano, natural da Hispania. Do interlocutor parte o firme propósito de confortar.

Ad Marcian ad consolatione:

Ensaio em favor de uma dama da corte de Calígula (12 - 41), Imperador Romano, e que perdera o filho; à inconsistência da sorte e à fragilidade existencial humana.

Ad Helvian ad consolatione:

Ensaio em favor de sua mãe, mentora intelectual de sua prática virtuosa;

Ad Polybum ad consolatione:

Ensaio em favor de determinado personagem influente, ministro do Imperador Claudius (10 a.C - 54 d.C), com o efeito de confortá-lo pela perda de um parente próximo.

Aproveitando a oportunidade oferecida pela literatura, Sêneca roga ao Imperador que reconsidere o seu desterro, deixando claro que o seu grau de suportabilidade havia chegado ao fim.

Sêneca diz: “Não sentir os males é não ser homem, mas não os suportar é falta de valor.”



Enfim, “Consolationes” dissertam sobre atitudes que devemos manter diante das desgraças costuradas pela vida. “O que não pode ser modificado precisa ser suportado”.

04/03/2009

"INSANIDADES, INTERESSES E UM DESTERRO"


" ... a vida de estadista do Imperador ... era mais que consecutivas tramas matrimoniais."

“INSANIDADES, INTERESSES E UM DESTERRO”

Calígula (12 - 41) não seria o último “imperador” psicótico. Uma seqüência deles faria história. Ao final, Roma estaria sempre às mãos de personagens insanos, sempre prontos a multiplicar suas vítimas. Contudo, o preço pago era alto, até para aqueles que se percebiam deuses.

Tiberius (42 a.C - 37 d.C) e Calígula primavam pela psicose pautada no entendimento pleno de suas atitudes - incontroláveis, mas plenamente perceptíveis. Eram os valores opostos chocando-se dentro de cada homem e seu poder - conflitos, realidade e irrealidade, alucinações e ilusões; a morte desejada como fim da dor e do sofrimento.

Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus (10 a.C - 54 d.C) - nascido Tiberius Claudius Nero Caesar Drusus - foi um homem discreto que governou os interesses do Império Romano.

Claudius era natural de Lungdunum - atual Lyon, França -, filho de Nero Claudius Drusus (38 a.C - 9 d.C) e Antonia Minor (3 a.C - 37 d.C). Coxo e gago - o que de certa forma sempre conspirou contra si -, ele nunca foi considerado um empecilho político para seus adversários. Entretanto era culto - dominava a língua etrusca - e contraiu matrimônio por quatro vezes - Plautia, Aelia, Messalina (17 - 40 ) e Agripina (16 - 59).

As primeiras esposas de Claudius, Plautia e Aelia foram frutos de casamentos infelizes, sendo repudiadas.

A terceira esposa, Messalina - originária de tradicional família aristocrática - era cruel e ambiciosa. Influente nas decisões do marido, sugeria vítimas para posteriores execuções, de forma despótica e tendenciosa.

De seu casamento com Claudius nasceram Britanicus (41 - 55) e Claudia (40 - 62) - rebatizada Octavia Neronis Augusta, futura esposa do sucessor imperial, Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus (37 - 68).

Foi um matrimônio meramente político, onde Messalina vivia constantemente envolvida em escândalos. Adúltera, libertina e promíscua, a terceira esposa de Claudius foi acusada de conspirar contra o “Imperador” - assassiná-lo, substituindo-lhe a posteriori pelo cônsul Gaius, seu amante. A trama foi descoberta por Narciso, secretário imperial. Capturada, a “Imperatriz” se viu condenada à morte.

Agripina, a quarta mulher de Claudius foi uma das vítimas do “Imperador” Calígula. Acusada de conspirar contra o mandatário maior da “cidade eterna” foi exilada por um período de dez temporadas.

Assim como Messalina, Agripina também influenciou nas decisões políticas do marido. Curiosamente, as famílias da terceira e quarta mulheres de Claudius não se suportavam. Assim sendo, seria possível acreditar em ardil montado por Agripina contra Messalina, quando esta foi condenada à morte. Afinal, aquela viria a suceder esta.

Porém, a vida de estadista do Imperador Claudius era mais que consecutivas tramas matrimoniais. Perseguições políticas e assassinatos não foram exclusividades de seu governo. Ao contrário, Roma conquistou seu equilíbrio econômico através de uma nova forma de gerir, frontalmente oposta aos interesses perdulários de Calígula.

Entre as obras promovidas pelo novo Imperador, a cidade litorânea de Óstia - hoje, parte da província de Roma – viu seu porto ser expandido.

Mais tarde, conquistas como a Mauritânia (oficializada em 42 d.C) e Ilhas Britânicas (43 d.C) - noroeste da Europa continental, onde foi criada a província da Britânia - permitiram-lhe ser divinizado, assim como Augustus (63 a.C - 14 d.C).

Contudo, Claudius cometia desatinos. Erros que provavam a sua falibilidade, tais como expulsar da “cidade eterna”, mediante decreto, todos os judeus que habitavam-na (Lucas, Atos 18:2).

Erros ocasional? O que dizer do desterro de Lucius Annaeus Sêneca (4 a.C – 65 d.C) - natural de Córdoba, Hispania, atual Península Ibérica -?

Pensador, filósofo e escritor, Sêneca, artista alimentado pelo estoicismo (1) , desenvolveu a “Tragédia”, forma de drama literário, onde o autor articula a idéia de conflito entre um personagem e um poder de instância maior - destino, deuses, sociedade ... leis ...

Originário de família ilustre - filho do orador Sêneca, “O Velho” – Sêneca estudou Oratória, atingindo eloqüencia acima da média, própria para seus novos propósitos alcançados - Advocacia e Senado.

Entretanto, acusado de adultério com uma dama da corte - nunca provado -, Sêneca foi levado ao desterro - Córsega, atualmente na França - pelo Imperador (41 d.C).

A insanidade persistiu até o fim, alimentada pelos interesses individuais de seus personagens. Àqueles que optassem por uma conduta ilibada, distante do poder que corrompe era preferível não emitir ponto de vista.

Sêneca soube ilustrar bem esse painel romano, ministrando um remédio infalível: “O verdadeiro bem é algo de concreto e pessoal” (De Vita Beata). Só alcançamos o verdadeiro bem através da liberdade, independente de nossa sorte. Aquela que nos ensina a consciência de nossas possibilidades.

(1) doutrina filosófica fundamentada na crença de que o universo é corpóreo e governado por um logos metafísico (alma?) que ordena todas as coisas. Assim sendo, devemos viver conforme a natureza e de maneira absolutamente racional.

25/02/2009

"CESARIENSES E TINGITANOS "(1)


" ... Imperador sucessor de Calígula, dividiu a Mauritânia em dois territórios ..."

"CESARIENSES E TINGITANOS"(1)

A ira de Calígula (12 – 41) ajudava nos processos de conquistas romanas. Seu ódio incontrolável pela humanidade combinava com sua astúcia, e seu ardil assassino era como uma lâmina de corte profundo, implacável.

Roma contabilizava vitórias e expandia o império. Administrava, romanizava, democratizava ... submetia.

As “Guerras Púnicas” (2) terminadas em 146 a.C, impondo a Cartago (3) um final apocalíptico, deixaram bem claras as regras e o “modus operandi” para as províncias africanas.

Era preferível ser um “reino subserviente”, “cliente de Roma". Com a Mauritânia - hoje, algo próximo aos territórios da Argélia e do Marrocos - , não era diferente.

Reino berbere (4) situado no litoral mediterrâneo, a Mauritânia era governada por Juba II (52 a.C – 23 d.C), mouro da Numídia (5) e rei com a chancela romana.

Juba II era o perfil perfeito ao interesses imperiais. Artista e homem das letras, o mouro redigiu vários tratados concernentes à Geografia, História, Literatura, Medicina, Pintura e Teatro, contabilizando mais de cinco dezenas de livros publicados - a maioria em língua grega.

O númida era casado com Cleópatra, filha de Cleópatra do Egito (70 a.C - 30 a.C) e Marcus Antonius (83 a.C - 30 a.C), um dos maiores militares criados pelo “Império Romano”.

Fruto desse casamento, o príncipe Ptolomeu (19 a.C - 40 d.C), anos mais tarde sucederia o pai no trono da Mauritânia. Entretanto, os interesses eram outros e o receio tomava conta do “psicótico imperador”.

Calígula conhecia a árvore genealógica da família e do povo de Ptolomeu. Em tempos remotos, a Fenícia (6) assentara terras entre as tribos nativas. Cartago, uma de suas “Cidades-Estado” - melhor dizendo, “Cidade-Colônia” - fora um tormento ao cotidiano marítimo dos “filhos da Península Itálica”.

Assim sendo perguntamos: Seria admissível que os descendentes de Cartago - púnicos - novamente subissem ao poder? Era preferível insuflar a massa contra o rei - o que não seria difícil -, para não criar um mártir e ... assassiná-lo.

A mente doentia de Calígula voltara a funcionar. Respeitando, antes de tudo, os interesses da “cidade eterna”.

Contudo, a lei de causa e efeito voltaria sua lâmina para o filho pródigo. Era esperar e assistir.

(1) Tiberius Claudius Caesar Augustos Germanicus (10 a.C – 54 d.C), imperador sucessor de Calígula, dividiu a Mauritânia em dois territórios (42 d.C), cortados pelo rio Mucha.

(2) Uma série de três guerras entre Cartago e Roma, entre 264 a.C e 146 a.C, onde se disputava a hegemonia do Mar Mediterrâneo.

(3) Cidade-Estado Fenícia – hoje, algo próximo a Tunis, Tunísia.

(4) Grupo de povos que falam línguas irmãs, da família de línguas afro-asiáticas.

(5) Reino africano berbere situado entre as províncias romanas Proconsular - hoje, Tunísia – e Mauritânia.

(6) Antigo reino do Mediterrâneo Oriental - atual Líbano. Estabeleceram colônias no norte africano e sul da Europa.

18/02/2009

"ABAIXO DAS SANDÁLIAS DO IMPERADOR, ROMA"


"Que me odeiem, mas que me temam." (Calígula)

"ABAIXO DAS SANDÁLIAS DO IMPERADOR, ROMA"

Morre Tiberius Claudius (42 a.C - 37 d.C). Cai o "império da desconfiança". Roma sonha com dias melhores. Será?

Calígula - Gaius Caesar Germanicus (12 – 41) - assume como “III Imperador Romano”. Golpe? Aparentemente, as rédeas da tirania correm frouxas e os acusados por conspirarem contra Tiberius, inocentados. A guarda pretoriana (1) acumula prêmios sucessivos e isso favorece o grau de empatia entre comandante e comandados.

Contudo, o “imperador” adoece vítima de uma febre inexplicável, sucedida por uma encefalite - inflamações agudas no cérebro. Tais males aliados a seu freqüente estado depressivo conspiram para alterar de forma drástica a sua personalidade.

Culto, Calígula domina o grego e a retórica. Entretanto, seu autoritarismo exacerbado se contrapõe, caprichosamente, por intermédio de pontos de vista que nunca procuram seguir uma lógica. Ele é o retrato conflitante de suas alegrias e tristezas, que perfuram sua memória, através de imagens marcantes, tais como a morte de sua mãe, Agrippina (14 a.C - 33 d.C) e seus dois irmãos - todos assassinados por ordem do “imperador” Tiberius (2) .

O “imperador” é refém de uma insanidade progressiva. Enxerga toda a cidadania romana como um único desafeto. Na primeira oportunidade, Calígula pretende decepar a cabeça desse personagem imaginário. Prefere ser lembrado pela crueldade, às custas de frases contundentes (3) .

O “senado” romano não entende Calígula. Ele está afeito a excentricidades e a ninguém é permitido contrariá-lo. Incitatus, seu cavalo, de forma bizarra é eleito cônsul, com direito a aposentos que lhe permitam receber visitas.

Homem de um elevado grau promíscuo, o “imperador” faz da nobreza e de sua vida palaciana um luxuoso bordel, copulando com as três irmãs – Agripina, mãe do futuro “imperador” Nero Claudius (37 - 68 ), Druscila e Livila.

Calígula encontra paz interior, somente nos momentos em que há o rompimento com valores pré-estabelecidos. Ele encontra equilíbrio, quando o instinto comanda as atitudes do homem social; quando o membro da cidadania romana regurgita suas fantasias mais perversas - lutar contra Netuno (4) , atirando conchas ao céu (imitando lanças) em virtude de chuva forte; ou ordenar esculpir sua cabeça em todas as estátuas de deuses da “cidade eterna”.

Dizem que o homem é seu próprio algoz. Calígula não estaria vivendo tal experiência? Cassius Chaerea (12 a.C – 41 d.C), um tribuno (5) e membro da guarda pretoriana, constantemente humilhado pelo “imperador” em virtude de sua homossexualidade, permite ser utilizado como ponta de lança de interesses políticos.

Cassius assassina Calígula, completando o serviço através das mortes de Milonia Caesonia (7 – 41) e Iulia Drusilla – esposa e filha do Imperador, respectivamente.

Calígula acabou sendo vítima de seus próprios fantasmas, outrora criados para aterrorizar Roma, uma cidade que aparentemente estava abaixo de suas sandálias, mas que fez de tudo para poder esquecê-lo.

(1) Grupo de legionários incumbidos da defesa do centro do acampamento - praetorium - das forças do exército romano, onde ficavam os oficiais. Guarda pessoal do imperador - apartir de Augustus (63 a.C. – 14 d.C.).

(2) É provável que o “imperador” Calígula tenha varrido de sua frente tudo que lembrasse Tiberius. Por exemplo: esbanjar boa parte do tesouro acumulado pelo antigo tutor imperial.

(3) “Que me odeiem, mas que me temam.” (Calígula)

(4) Personagem mitológico cultuado pelos romanos. É o deus do mar, das fontes e das correntes de água.

(5) Magistrado que atuava junto ao “senado”, defendendo os interesses da plebe e dos soldados.

11/02/2009

"LEMBRANÇAS DO MONTE CALVÁRIO"


"Todos acompanharam o martírio do Monte Calvário e nunca mais saíram de lá."

“LEMBRANÇAS DO MONTE CALVÁRIO”

Gaius Cassius Longinus (século I d.C) era natural da Germânia e pertencia a uma das centúrias (1) romanas.

Homem fiel aos interesses do Império Romano, Longinus viu-se afastado dos serviços militares, em virtude de uma catarata . Porém, pelos bons serviços prestados a Roma, o ex-chefe de centúria é nomeado “observador de movimentos políticos da Palestina”, e viaja com destino a Jerusalém.

Uma das tarefas legadas a Longinus era acompanhar o cotidiano de um “novo líder que se destacava entre os judeus". Seu nome era Jesus (4 a.C – 29 d.C).

Longinus, “o observador romano”, por um período de dois anos, acompanhou as viagens realizadas pelo “Messias”. Não havia quem conhecesse melhor “O Homem Prometido Pelas Escrituras”. Assim sendo, é possível concluir que Roma sabia de Jesus e não lhe considerava perigoso. Ele era, sim, um obstáculo aos interesses sacerdotais judaicos.

Pontos de vista divergentes que convergiam para um possível enfrentamento, Jesus e o Sinédrio (2) estavam expostos ao livre arbítrio do homem, que poderia ser medido pelos interesses acumulados entre uma ruptura da ordem estabelecida, simpática à ala radical, e o continuísmo da subserviência ao poder imperial, simpático à ala de governantes e sacerdotes moderados.

Entre os dois lados da moeda, Jesus apelava ao amor incondicional ao próximo. Algo como o caminho do meio, do equilíbrio profundo e do bom senso, onde a natureza humana pauta suas regras pelo prisma do belo, do bem e da verdade.

O “Messias” conseguia desagradar a todos. Injustamente, alguns o enxergavam passivo, enquanto outros o enxergavam corrompido pelo ego. Não foi difícil descobrir “Seu” destino.

Entre Barrabás e Jesus, os judeus preferiram a incerteza. Porém proclamaram a imortalidade de “Seus” pensamentos, tornando-“Lhe” mártir da desobediência civil.

Ao crucificá-lo, Pontius Pilatus pensou neutralizar a fúria local. Contudo, apenas acentuou a culpa de um povo marcado por seus desencontros.

Todos acompanharam o martírio do Monte Calvário e nunca mais saíram de lá. Cada um dos presentes pereceu parte de si, através da lança de Longinus, o observador (3) .

O fim dos dias de Jesus impressionou Longinus - ele respeitava a vida e obra do “Mestre”. Inconformado com o uso tendencioso da lei, renunciou a tudo, aderindo ao cristianismo e tornando-se monge.

Mais tarde, quando perseguido pelos inimigos da nova fé, “o observador" foi preso, martirizado e decapitado. Capadócia - atual Turquia – assistiu seu cadafalso.

Espelho de uma nova e incomparável realidade, o episódio do Monte Calvário marcou o surgimento das relíquias cristãs; artefatos interpretados como ligas entre o “Céu” e a “Terra”. “A Lança de Longinus”, uma delas (4) .

(1) Centúria era uma unidade constituinte das coortes romanas, que continha oitenta legionários..

(2) Assembléia formada por vinte e três juízes que a lei judaica ordena existir em cada cidade.

(3) Longinus trespassara o flanco de Jesus, no intuito de certificar-se de sua morte.

(4) A lâmina que perfurou “O Filho de Deus”. Forjada pelo profeta Finéias - filho de Eleazar, sumo sacerdote -, com a finalidade de simbolizar os poderes mágicos do sangue do povo eleito. Tal artefato foi empunhado por oficiais das centúrias romanas - Longinus, por exemplo – averbando autoridade.

04/02/2009

"INTELIGÊNCIA, CONHECIMENTO E SABEDORIA"


" ... Pilatus será sempre lembrado pela indiferença com que lidou a existência humana."

“INTELIGÊNCIA, CONHECIMENTO E SABEDORIA”

Sabemos diferenciar “inteligência”, “conhecimento” e “sabedoria”?

A História, suas mudanças e permanências ajudam a reavaliar tais valores, próximos e distantes, simultaneamente.

A “inteligência” seria a matéria prima inerente a todos. A capacidade humana de articular frente ao cotidiano.

Sabendo realizar, o homem demonstra domínio das mais complexas situações. Sendo assim, ele evolui e nada é anômalo. Uma nova fronteira é atingida. Chamamo-la de “conhecimento”.

Contudo, utilizar-se da inteligência com a finalidade de chegar ao conhecimento, não é tudo. Usufruir do segundo, inadequadamente, nos leva ao desequilíbrio social. É preciso interagir com o meio e seu código de leis. Ao respeitá-lo, alcançamos a “sabedoria”.

Aplicando tais atributos à História, chegamos ao entendimento de certos capítulos pertinentes à cronologia desta.

Por exemplo, Aulus Cornelius Celsus (25 a.C – 50 d.C) era um médico de cultura ímpar, natural da Gália. Lidava com extrema propriedade dos assuntos ligados a cirurgias, dietas e farmácia, além de atributos da áreas agrícola e retórica, bem como das leis e do militarismo. “De medicina” - de sua autoria - era considerada uma das melhores fontes de consulta, em área específica, de seu tempo.

No livro de Celsus discute-se teoria e prática médica; prós e contra dos experimentos efetuados com animais; epilepsia - chamada de “morbus comitialis” -; e os males psiquiátricos - batizados como “insânias”.

Criador da “Escola Eclética” - de compromisso -, Celsus alcançou seu apogeu, ao mesmo tempo que Pontius Pilatus era eleito prefeito - praefectus - da Judéia (entre 25 e 26 d.C).

Ao contrário de Celsus, Pilatus será sempre lembrado pela indiferença com que lidou a existência humana.

Manter os interesses romanos em primeiro lugar - distantes de conflitos com o povo local - permitiu com que Pilatus decidisse destinos de forma tendenciosa, não importando o nível de justiça.

O que interessava Pilatus era a imagem do prefeito constituído pelo imperador.

Imagem, a armadilha dos déspotas! A mesma que reconduziu a Dinastia Han (206 a.C – 220 d.C) ao trono da “China Imperial Ocidental”, através de uma “guerra civil” fomentada pelos latifundiários - grandes proprietários de terras - contrários ao governo reformador da Dinastia Xin (8 - 23 ).

Poder! Essa lâmina de corte profundo que, ao menor sinal antagônico, funciona e exclui. Aquela que relega princípios, tais como a “sabedoria” - um dos últimos degraus da conquista do livre arbítrio.

28/01/2009

"ÀS MARGENS DO RIO BATISMAL"


" ... o oportunismo do destino marcou o cruzamento das idéias ..."

"ÀS MARGENS DO RIO BATISMAL"

Pregador e precursor do "Messias" prometido, o filho do casal Zacarias (m. 12 d.C) e Isabel (m. 22 d.C) – também conhecida como Elizabete - nasceu em Aim Karim, aldeia da Judéia .

Zacarias era sacerdote e cuidou de circuncidar o filho, no oitavo dia após seu nascimento - como era costume dos judeus - , além de educá-lo dentro das normas de procedimento da sociedade religiosa local - Judá -, complementadas, mais tarde, em Engedi - hoje, Qumram.

"Batista" usava cabelos compridos, não ingeria bebidas alcoólicas e não tocava nos mortos - características da cultura nazarita, à qual fora iniciado.

Futuramente, com a morte do pai, "Batista" mudou-se com a mãe para Hebrom, situada no deserto da Judeia, iniciando sua vida de pastor. Dez anos depois, com o falecimento da mãe despojou-se dos bens, em favor da "irmandade nazarita", passando a pregar sobre o "reino do céu" e a chegada do "Messias".

Influenciado pela história do profeta Elias (século IX a.C), "Batista" vestia-se da mesma forma que ele, discursando com incrível semelhança. Por vezes era chamado de "o encarne de Elias". Inclusive, "O Evangelho de Lucas" atesta uma "certa incidência do espírito de Elias" nas propostas apregoadas pelo "pastor" (Lc 1,17).

"Batista" discursava sobre a chegada do "Messias" - fonte de esperança do povo judeu - , advertindo sobre os excessos decorrentes do nacionalismo exacerbado, assim como trabalhava incansavelmente no converter dos gentios – aqueles que não professavam a fé judaica -, o que era alvo de profunda polêmica.

Contudo, seu instante máximo foi o batismo de "Jesus (4 a.C - 29 d.C)". Humilde, a partir de sua essência, "Batista" não se julgava digno de tocá-lo, muito menos apertar as correias de suas sandálias. Mas, na cidade de Pela, o oportunismo do destino marcou o cruzamento das idéias,entre a austeridade e a suavidade; entre o instinto anunciador e o raciocínio anunciado. Era o ano sublime de 25 d.C .

Dizem as fontes históricas, sobre vários aspectos incomuns desse prestimoso encontro, tais como a firmeza de uma voz ouvida pelos presentes, rompendo o silêncio habitante do céu, informando a chegada do "Filho de Deus" , acompanhado pelo vôo de uma pomba, entre o "ministro do batismo" e o Batizado. De tal ritual, próprio da passagem de valores humanos de um estágio a outro, a História criou um mote, a ser seguido e respeitado pela posteridade.

Mais que um pacto entre Deus e os homens, selando compromissos bilaterais, envolvidos por direitos e deveres, o batismo do "Verbo" eternizou seus personagens. Sendo assim, mesmo a morte – passagem? – do "Batista (29 d.C)" e de "Jesus" não foram suficientes para submeter-lhes um fim anônimo.

21/01/2009

"A JORNADA DO APANHADOR DE ESTRELAS"


" ... o éter cósmico trouxe-lhe novas incursões ..."

"A JORNADA DO APANHADOR DE ESTRELAS"

Astrônomo e historiador membro do corpo de funcionários e servidores imperiais da "breve Dinastia Xin (8 – 23)", o matemático Liu Hsin - Xiu – conheceu, além das estrelas e planetas, o inferno.

Filho do confucionista (1) Liu Xiang (77 a.C – 6 a.C), Xiu vivia rodeado dos maiores pensadores de sua época - anos trevosos haviam obscurecido a cultura literária chinesa, por intermédio da Dinastia Tsin (221 a.C – 207 a.C). Contudo, a ascendência das Dinastias Han (206 a.C – 220 d.C) e Xin trouxe de volta o suspiro intelectual a uma China feudal, mercê dos interesses de clãs latifundiários ou de nobrezas secundárias e emergentes, artífices de uma reforma agrária e econômica superficiais.

No campo astronômico, Xiu é lembrado por seu trabalho científico, intitulado "Tripla Concordância (8 d.C) (2)", que colaborou intensamente com o desenvolvimento do calendário tradicional chinês – agrícola.

Entretanto, o éter cósmico trouxe-lhe novas incursões, tais como o catálogo de estrelas e o estudo pormenorizado dos períodos de planetas.

Não esquecendo de sua raiz intelectual - a Matemática - , Xiu otimizou os cálculos do valor de "pi" e realizou trabalhos consideráveis com frações decimais, entre 1 e 5 d.C.

Porém, a lógica dos números não lhe trouxe esclarecimentos convincentes sobre a política imperial chinesa.

A "Batalha de Kuniang (23 d.C)" foi o início do fim da "breve dinastia". A retomada do império por parte da Dinastia Han parecia inevitável. Sendo assim, Xiu passou a conspirar no sentido de beneficiar seu destino de "homem das ciências". Inábil, capitulou diante da caça aos infiéis.

Cabeça conspiratória ou envolvimento aleatório? A segunda hipótese parece ser a que melhor se enquadra em sua personalidade. Contudo, sua mente brilhante não lhe permitiu escapar do cadafalso.

Hoje, Xiu não passa de um nome outorgado a uma cratera do planeta Marte. Pouco? Um tributo a seu legado.

(1) Adepto dos ensinamentos ministrados por Confúcio (551 a.C – 479 a.C) e propagadores. Abrangia a áreas filosóficas e sociológicas.

(2) Envolvia entre outras abordagens, o intervalo de tempo médio decorrido entre duas fases iguais e consecutivas da Lua – chamado de mês sinódico.

14/01/2009

"TIBERIUS AD TIBERIM" (1)


" ... paranóico, instável, conflituoso ..."

"TIBERIUS AD TIBERIM"(1)

O território da Campânia – formado pelas províncias de Avellino, Benevento, Caserta, Nápoles e Salerno – assistiu a morte de Gaius Caesar (63 a.C. – 14 d.C.). Enfim, encontrava epílogo "o século de Augustus".

Nascido da família Claudii, filho adotivo do "imperador", Tiberius Claudius (42 a.C. – 37 d.C.) surgiu como seu legítimo sucessor.

Filho adotivo, enteado, protegido... O que era Tiberius para Augustus?

Na verdade, Tiberius e Drusus (39 a.C. – 9 a.C.) eram filhos dos mesmos pais biológicos, T. C. Nero e Lívia Drusilla (55 a.C – 29 d.C.).

Divorciados - Nero e Drusilla -, possibilitaram que Augustus contraísse matrimônio com a mulher – que, ardilosamente convenceu o "novo" marido a adotar o primogênito do casamento anterior, com plenos poderes a suceder-lhe.

Mais tarde, contrariando sua vontade, Tiberius foi obrigado a divorciar-se de Vispânia, para casar-se com Júlia (39 a.C. – 14 d.C.) - filha do "imperador" e conhecida por costumes excessivamente devassos. Sendo assim, mãe e filho; sogra e genro; tornaram-se uma única dupla.

Tiberius era um paranóico, instável, conflituoso... Acreditava em todas as teorias conspiratórias possíveis. Temia o filho de Drusus, Germanicus (15 a.C – 19 d.C.) – general de extrema popularidade junto às tropas romanas, mas, de fidelidade acima de qualquer suspeita.

Infelizmente, vítima doentia do "novo imperador", Germanicus seria levado à morte por envenenamento – executado por Cneio Calpúrnio (m. 20 d.C.), general do exército de Roma.

Com a personalidade em franco estado degenerativo, Tiberius passou a acumular hábitos um tanto quanto duvidosos, tais como pedofilia, transformando a Ilha de Capri - local de seu novo palácio - um reino de sua lascívia, abrindo caminho para o implacável e ambicioso Sejanus (20 a.C. – 31 d.C.) (2) - líder da guarda pretoriana - executar o serviço de extermínio dos "supostos inimigos romanos".

Assim sendo, admira-se um homem como Tiberius, com tamanhos desvios de caráter, administrar o império de maneira correta, mantendo a "pax romana" controlada. Econômico - para sermos generosos -, negava os "jogos de cunho competitivo" aos romanos – o que era um tradicionalismo imperial. Muito do ódio nutrido pelo povo à sua pessoa nasceu desse seu lado avaro de ser.

Ao final, Tiberius Claudius morreu de causas naturais, cercado de guardas pretorianos e isolado do carinho alheio; temendo ser deposto e assassinado.

(1) Ao saber da morte de Tiberius Claudius, " II Imperador Romano", a "cidade eterna" respirou aliviada, gritando pelas ruas, através da voz do povo: "Tiberius ad Tiberim (Tiberius ao Tibre)" – desejo frenético de atirá-lo ao conhecido rio.

(2) É descoberto um plano para depor Tiberius Claudius, arquitetado entre outros pelo general Sejanus que, mercê ao ato traidor, é executado sumariamente..

07/01/2009

"A BREVE DINASTIA DO GENERAL CHINÊS"


" ... ideais revolucionários, ... reforma agrária e econômica ..."

"A BREVE DINASTIA DO GENERAL CHINÊS"

Depois de incontáveis lutas entre os estados feudais que lhe fatiavam, a China unificada emergiu sob a bandeira da Dinastia Tsin (221 a.C – 207 a.C) e pelas mãos de Chi - “Primeiro Imperador” - Huang-ti (259 a.C – 210 a.C).

Foi uma dinastia marcada pela excelência de sua artilharia, cavalaria e infantaria. Enfim, seu poderio bélico.

Tirano e caprichoso, Huang-ti ficou conhecido por mandar construir a “muralha chinesa”, além de ter sido sepultado junto ao “exército de terracota”, esculpido artisticamente.

Uma característica marcante da Dinastia sucessora e antagônica, “Han (206 a.C – 220 d. C)” – e de todos os outros regimes chineses, até o fim da China Imperial – foi utilizar-se do “confucionismo” – sistema filosófico baseado nos ensinamentos de Confúcio (551 a.C – 479 a.C) sobre amizade e eqüidade (*) –, como base ideológica estatal.

À época dos “Han”, o “budismo” adentrou fronteiras chinesas, ocupando-se da fé de todos aqueles que procuravam a sabedoria e fazer o bem a outrem, negando de certa forma as influências perniciosas promovidas pela “rota da seda” .

Ao contrário da doutrina propagada pelo “Iluminado”, a Dinastia Han, de cunho militarista, avançou suas forças contra determinados bárbaros do oeste; homens das estepes; hunos da Mongólia, submetendo-lhes a vassalagem.

Porém, a dinastia vigente não era unânime. Existia uma célula divergente, nascida do interior do governo: O Oficial Wang Mang (45 a.C – 23 d.C).

Mang era general e possuía influência nos meios militares. Conspirando através das forças que ofereciam respaldo ao clã “Liu” , impôs sua “breve dinastia” – Hsin ou Xin (8 – 23 ).

Sinalizando ideais revolucionários, Mang ordenou instituir-se a reforma agrária e econômica - visivelmente favoráveis aos camponeses - desagradando às famílias nobres, proprietárias de terras.

A guerra civil parecia inevitável e o jogo pelo poder manipulava personagens no presente, com olhos atentos no futuro.

Sendo assim, a utopia do general visionário pereceu pelas mãos da Dinastia Han, apoiada pela nobreza - preocupada com a ascendência campesina.

Se algum dia houve pureza nas atitudes tomadas pelo General Wang, elas foram ceifadas pela lâmina latifundiária chinesa.

(*) respeito aos direitos de cada indivíduo.

31/12/2008

"A ARTE DA BOEMIA ROMANA"


"... boêmio, libertino, irônico ... lírico."

“A ARTE DA BOEMIA ROMANA”

Nasce o século I; inicia-se a era cristã. O mundo não percebe que o ícone conquistador é vítima de si próprio. O Império Romano é absorvido por suas intrigas, levando o imperador Augustus (63 a.C. – 14 d.C.) a tornar-se seu último suspiro de verdadeiro esplendor.

Financiador das artes, Gaius Caesar Augustus era contemporâneo de homens do naipe do historiador Tito Lívio (64 a.C. - 17 d.C.); Vitrúvio (século I d.C.), arquiteto romano; e Ovidius (43 - 17 ), poeta latino, entre outros.

Publius Ovidius Naso nascera no Lácio – formado pelas províncias de Frosinone, Latina, Rieti, Roma e Viterbo -; era boêmio, libertino, irônico ... lírico. Incontestavelmente poético e além do seu tempo.

Iniciado na arte retórica e na Filosofia, o autor da deslumbrante e polêmica apologia à arte de conquistar - “Ars Amatoria” (c. 1 d.C.); obra interpretada imoral, que lhe levou ao exílio da “cidade eterna” - teve como sua maior obra, “Metamorphoses” (c. 14 d.C.).

Poema escrito em quinze livros - inacabado? - , “Metamorphoses” é o levantamento das principais mitologias greco-romanas e o seu envolvimento com a História do mundo. Espécie de coletânea de cabeceira dos principais escritores medievais ou renascentistas.

Quer pela genialidade de Dante (1265 – 1321), ou quiçá pela genialidade de Shakespeare (1564 – 1616), Ovidius nunca deixou de volitar sobre a magia de seus ambientes, costurados através de tramas impostas aos fios artesanais de sua criatividade.

Assim sendo, antigo e medievo puderam coexistir na eternidade.